quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Oficial português difere de CEMGFA timorense sobre massacre

Um oficial português das Nações Unidas apresentou hoje um testemunho diferente do comandante das Forças Armadas timorenses sobre o incidente mais grave da crise de 2006.

O comissário Nuno Anaia, oficial da Polícia de Segurança Pública ao serviço da Polícia das Nações Unidas (UNPol) em Timor-Leste, declarou hoje que o brigadeiro-general Taur Matan Ruak concordou com um cessar-fogo na manhã de 25 de Maio de 2006.

Nesse dia, militares das Falintil-Forças de Defesa de Timor-Leste (F-FDTL) dispararam sobre uma coluna de 103 elementos da Polícia Nacional (PNTL) desarmados e sob escolta das Nações Unidas.

«Sei que o coronel Fernando Reis chegou a acordo com o brigadeiro-general Taur Matan Ruak para um cessar-fogo com algumas condições», declarou hoje o comissário Nuno Anaia no Tribunal de Recurso, em Díli.

«As condições eram que os PNTL entregassem as armas, que saíssem do quartel-general da Polícia a pé e que saíssem com as Nações Unidas», explicou o comissário da UNPol.

O oficial português referia-se ao contacto entre o coronel português Fernando Reis, assessor das F-FDTL, e o comando das Forças Armadas timorenses, no antigo quartel da missão internacional (PKF), em Caicoli.

O brigadeiro-general Taur Matan Ruak, ouvido há uma semana no mesmo processo, afirmou que o tiroteio em Caicoli, junto ao ministério da Justiça, parou a pedido do coronel Fernando Reis e elementos da ONU, porque elementos das PNTL desejavam render-se.

«Os membros das Nações Unidas não pediram ou não ordenaram às F-FDTL para se desarmarem e retirar do Ministério da Justiça e outros locais», explicou o brigadeiro-general Taur Matan Ruak ao colectivo de juízes.

«Continuavam a dizer que a PNTL desejava render-se, sem explicar os pormenores da rendição», acrescentou Ruak.

«Os dois membros da ONU seguiram para o quartel-general da PNTL, dei ordens aos membros (das F-FDTL) para pararem os tiroteios e assim aconteceu», referiu o chefe do Estado-Maior das F-FDTL.

Nuno Anaia, que encabeçava a coluna dos PNTL ao volante de uma viatura da ONU, é o único dos 17 elementos das Nações Unidas presentes no tiroteio que ainda permanece em Timor-Leste.

O oficial saiu ileso do tiroteio mas a sua viatura esteve sob fogo cruzado das F-FDTL e foi atingida por duas balas.

O comissário da UNPol foi ouvido pelo Tribunal de Recurso como «lesado» no incidente de 25 de Maio de 2006, após ter sido autorizado a testemunhar pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

No final da audiência, o juiz-presidente Ivo Rosa informou o comissário Nuno Anaia de que «não existe nenhuma imunidade» que impeça um elemento da ONU de testemunhar em tribunal.

Um parecer da assessoria legal da missão da ONU em Timor-Leste (UNMIT) alegou esse tipo de imunidade, até Ban Ki-moon autorizar o comissário da UNPol a comparecer no Tribunal de Recurso.

Os doze arguidos no processo do massacre dos oito polícias timorenses são acusados de homicídio pelo Ministério Público.

Diário Digital / Lusa 23-10-2007

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