quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Timor: Massacre de Caicoli durou 40 segundos e fez 8 mortos

O incidente mais grave da crise de 2006, conforme relatado terça-feira por um oficial português em Timor-Leste, foi uma curta-metragem de grande economia de recursos: oito mortos em 40 segundos.

O comissário da PSP Nuno Anaia relatou na terça-feira ao Tribunal de Recurso, em Díli, o que viu no dia 25 de Maio de 2006, quando elementos das Falintil-Forças de Defesa de Timor-Leste (F-FDTL) atiraram sobre uma coluna desarmada da Polícia Nacional (PNTL), que seguia a pé sob escolta das Nações Unidas.

O oficial da PSP, ao volante da sua viatura da Polícia das Nações Unidas (UNPol), encabeçava o lado esquerdo da coluna de 103 polícias que saíram do quartel-general da PNTL, em Caicoli.

A coluna foi atacada poucas centenas de metros mais à frente, junto ao Ministério da Justiça.

O testemunho de Nuno Anaia é um «filme» diferente dos outros ouvidos nas últimas semanas pelo colectivo de juízes presidido pelo magistrado português Ivo Rosa, no âmbito do processo em que onze militares e um inspector da PNTL são acusados de homicídio.

Juntas, as respostas do comissário Nuno Anaia formam um filme equivalente ao que seria captado, de câmara ao ombro, pelo realizador - se o realizador fosse o alvo.

«O tiroteio durou 15 a 30 segundos, no máximo, antes de eu arrancar com o meu carro, cheio de PNTL's, em direcção ao Obrigado Barracks», quartel-general da missão internacional, contou o comissário.

«Os militares dispararam 30 a 40 segundos», acrescentou Nuno Anaia.

O oficial português é o único elemento da ONU, dos 17 presentes no tiroteio de Caicoli, que ainda se encontra em serviço em Timor-Leste, onde está em missão desde Setembro de 2003.

Foi Nuno Anaia, na altura assessor do comandante-geral da PNTL, quem, «à porta do quartel-general», organizou a coluna de polícias, alinhados em 3 filas de cerca de 35 homens.

Dentro do quartel-general, os polícias tinham sido desarmados e as armas colocadas «dentro de um blindado da UNPol».

A coluna dos PNTL, enquadrada por uma dezena de viaturas internacionais, era liderada, a pé, pelo coronel Fernando Reis, assessor militar português, e por Salif Malik, actualmente na missão da ONU na Eritreia, que empunhavam uma bandeira da ONU.

O objectivo da coluna era evacuar os polícias para as Obrigado Barracks, no seguimento de um cessar-fogo obtido pelo coronel Fernando Reis com o comando das F-FDTL, presente em Caicoli, onde militares e polícias tinham trocado tiros nessa manhã.

«Havia polícias que não queriam aceitar (a evacuação) e foi-lhes dito que podiam ficar no quartel-general», sem protecção aos disparos das F-FDTL.

«Tinham receio de um ataque cá fora», recordou o comissário Nuno Anaia.

Antes de a coluna dos PNTL avançar, três batedores da UNPol «foram à frente para verificar a passagem», até junto do Ministério da Justiça, falando com cerca de seis elementos das F-FDTL armados que aí se encontravam.

«Esses militares recuaram» e, a um sinal dos batedores, a coluna dos PNTL começou a marcha.

«Seguimos um percurso que evitaria passar pelo quartel da Polícia Militar e que, nas circunstâncias da altura, parecia o melhor», explicou hoje o comissário Nuno Anaia, acrescentando que a única via alternativa estava impedida por contentores «colocados para o congresso da Fretilin».

Quando a coluna passava no cruzamento do ministério da Justiça, Nuno Anaia viu elementos das F-FDTL aproximando-se, armados, de ambos os lados da estrada, correndo «com a arma pela bandoleira».

«Os polícias, que já estavam apavorados, ficaram ainda mais em pânico», recordou Nuno Anaia.

«Tentámos acelerar a marcha e a coluna continuou a andar».

De súbito, o comissário ouviu «gritos em tétum do lado direito, que foram correspondidos do lado esquerdo».

«Vi os elementos das F-FDTL a passarem as armas por cima dos elementos das UNPol e a dispararem», disse Nuno Anaia.

Interrogado sobre o «alvo primordial» do tiroteio, o oficial declarou que, «pelo tipo de armas, o alvo eram elementos seleccionados», com «tiros selectivos».

«Se não fossem, teria havido rajadas, porque a M16 tem uma posição (de tiro) que permite isso», declarou o oficial português.

A viatura de Nuno Anaia, para onde tinham entrado e saltado elementos da PNTL («era uma 'pick-up'»), foi atingida com dois tiros.

Nuno Anaia declarou que «de certeza não houve qualquer disparo do meio da coluna dos PNTL para fora», como alegam os arguidos.

Diário Digital / Lusa

24-10-2007 7:25:00

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